quinta-feira, abril 19, 2007

Abro aqui espaço para divulgar o site Portal Literal, assim como, agradecê-los por terem eleito o texto “A Caverna Virtual”, como um dos finalistas de seu concurso literário Exercícios Urbanos.

Obrigado

sexta-feira, novembro 10, 2006

A Caverna Virtual

Logo pela manhã o celular toca e a acorda. Ela conversa rapidamente sem saber ao certo com quem está falando. Na verdade, ela não consegue nem ao menos saber se existe alguém do outro lado do fone. Ela desliga o aparelho confusa, sabendo que pode ter conversado simplesmente com uma gravação, uma secretária eletrônica qualquer.
O mundo das coisas não é mais o que ela conhecia, as coisas deixaram de existir e transformaram-se simplesmente em idéias do que costumavam a ser. A vida se tornou apenas reflexo da realidade. Uma loja de desejos, ilusões e vontades. Uma projeção do real.
Ela se levanta, se embeleza, mas não vai para a rua. O seu trabalho é feito no escritório, sem sair de casa. Ela presta serviços diretamente de seu computador, para uma empresa que não conhece pessoalmente, que não possui salas ou equipamentos. A empresa é algo chamado de virtual, seu endereço é eletrônico e distante. A máquina caminha por si só, comandada pela simples idéia de pensar que existe. Essa empresa mostra imagens de produtos, e os vende em troca de dinheiro.
Enquanto trabalha, ela também compra coisas, inclusive, da mesma empresa em que trabalha. Produtos que ela mesma criou. Mas ela não liga, a sua vontade é insaciável. Depois, ela paga a conta, com um dinheiro que não é feito de notas e nem de papel. Um dinheiro que ninguém pode tocar, e que apesar de invisível, circula feito mentira e enriquece pessoas da noite para o dia. O comércio se tornou um escambo imaginário, e apertos de mão foram trocados por senhas e reconhecimento da íris. Não se troca mais gado por soja, ou melhor, todos querem o gado e a soja, mas querer já basta... Todos querem a vontade e não o prazer de satisfazê-la.
Chega a hora do almoço, a comida é artificial e geneticamente modificada. Os tomates já nascem vermelhos e sem sementes. Os frangos desafiam a Teoria da Evolução. As comidas típicas são tipicamente industrializadas, feitas por máquinas de indústrias estrangeiras, importadas apenas consigo mesmas.
Depois de saciada, ela se desnuda e observa a si própria, focalizada por uma webcam. Seu reflexo é belo e intrigante. Curvas intermináveis de prazer e delícia. Enquanto se toca, repara que não é mais a mesma mulher. O seu corpo está transformado, está bronzeado, com seios fartos, o sorriso carnudo, o olhar altivo. Plásticas, tratamentos de beleza e estética realizaram um verdadeiro transplante de alma e corpo. Mas nada disso importa, o desejo é eminente.
O sexo é algo muito bom e intenso, apesar de distante. Hoje em dia, ela transa com liberdade, tem quantos parceiros quiser e na hora em que quiser. Transa inclusive com várias pessoas ao mesmo tempo e sem que essas pessoas saibam umas das outras. Uma maneira gostosa e segura, com um risco mínimo de ser descoberta ou de contrair qualquer imprevisto. Basta que tenha instalado o antivírus corretamente.
Durante as suas horas vagas. Ela visita museus e estuda obras de arte. Tudo sem sair de casa. A música que ouve possui batidas eletrônicas. Os filmes que assiste dispensam atores, figurantes ou paisagens reais. O teatro e o circo transformaram-se em shows de luzes, sons e imagens em 3D. Os livros que lê não são mais de papel, não são mais livros. Procuram vender a idéia de si mesmo. O seu jogador de futebol preferido na atualidade é um garotinho sentado numa cadeira de rodas, que joga futebol com as mãos, defronte ao videogame. E é com o videogame que ela viaja pelo mundo. Pilota o seu próprio Boeing 747, aterrissa em ilhas do outro lado do continente. Transforma-se em agente secreta e salva o mundo diversas vezes ao dia.
A sua vida lhe permite popularidade. Ela possui um registro com centenas de amigos. Gente que ela nunca viu, ou então, gente dos tempos de escola, do antigo bairro em que nasceu e das viagens ao interior que fazia quando pequena. Ela conversa com alguns deles e bisbilhota a intimidade de muitos outros, mas ninguém se importa, desde de que não se visitem pessoalmente.
A sua saúde vai bem, o coquetel de vitaminas (inclusive vitamina D) que ela toma diariamente tem suprido todas as suas necessidades. Aquelas terríveis dores nas costas, derivadas do desvio de coluna, já são coisas do passado. Para dizer a verdade, a sua coluna vertebral está cada vez mais torta, mas a droga que o médico lhe deu é milagrosa. O doutor diz que o segredo está em continuar com a dor, mas sem senti-la. Afinal de contas o que importa é ser ou estar?
Alguns de seus amigos também têm sentido dores, só que são outros tipos de dores, como a dor do amor e da solidão. A droga que tomam é a mesma, porém em doses diferentes. Todos eles mantêm um estreito relacionamento médico-paciente, através de e-mails e consultas à sua clínica virtual. O médico examina a todos e, além da droga, sempre recomenda terapias em grupo dentro de algumas das salas de bate-papo.
Ela se considera uma mulher realizada e moderna. Diz que sente pena das pessoas que afirmam que a vida é uma grande ilusão coletiva. Para ela, tudo no mundo é autêntico e verdadeiro, e mentira é apenas o que dizemos para os outros e não para nós mesmos.Depois de um dia duro e trabalhoso, ela se deita cansada e adormece, sem saber ao certo qual é a diferença entre dormir e acordar.